segunda-feira, 28 de novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pierrot meu amigo* (Jean Luc Godard)


 Dizem-me que fale do Pierrot. E eu digo que não sei que dizer. Respondem-me que eu tenho razão. Se assim é, falemos, pois, doutra coisa qualquer, que lá iremos parar, de Mc Arthur e do natural, para nos vingarmos e porque é normal.

 Mas enquanto não pomos os pontos no i de um e de outro, tanto faz, poema de Rimbaud, e pois que a crítica mais não é do que dar conta da organização poética dum filme ou ideia, do que conseguir libertar essa ideia como objecto, para comtemplar se sim ou ou não esse objecto está vivo eliminando os mortos

- enquanto isso, dizia eu, saibamos ao menos que is e que ponto, fixo, como os aviões antes de levantarem vôo, e mais vale por agora que nos deixemos de perguntas e de respostas , ou de rios de sentimentos que se perdem no mar de reflexões, ou de vice ou de versa subitamente e que encadeemos, encadeemos, encadeemos até não poder mais, como faz François, e só ele, que os outros não sabem o que fazem ou fazem o que é moda, e é isso, é preciso é mergulhar em digressões para cozer, com filmes como agulhas, os pedaços destroçados da nossa branca tela, essa que de tanto a passajarmos, hoje, mais hoje, mais amanhã, à hora do trabalho, até acabamos por nos esquecer que é virgem, sempre virgem, como um negativo, quer este se chame Dupont, Ilford ou Kodak, que é sempre de uma só peça e que basta soprar com força para a estender, isto é para restituir os que esqueceram o seu texto a uma direcção positiva, seja quem for que sopre, seja Skolimovski, Hitchcock ou Langlois.

 E é isto, encadeemos, montemos as ideias que se atraem sem pontos finais, isto não é um romance policial, nem de Céline, que a esse a literatura lhe chegou e foi bem feito que sofresse, vivesse no meio das palavras e atirasse cá para fora livros e mais livros, nós somos do cinema, é outra coisa, é a vida, antes de mais nada, e a vida, o que não é novo mas difícil de dizer, só se pode vivê-la ou morrê-la, para falá-la há os livros, pois há, mas no cinema não temos livros, só temos música e pintura, e essas, bem o sabemos, vivem-se e jamais se falam.

 Assim, o Pierrot - já se percebe agora porque é que eu não sei o que hei-de dizer? - o Pierrot é a vida, é o sujeito, com o cinemascope e a cor como atributos, que eu tenho ideias largas. A vida digo, e devia antes dizer um princípio de vida, um pouco como essa história das paralelas do Euclides é um princípio de geometria.

 Há outras vidas, e há de as haver, basta pensar nos lírios quebrados, nos leões que se caçam com arcos, no silêncio de um hotel no norte da Suécia. Mas a vida dos outros é sempre desconcertante. Quanto mais a vida, a vida apenas que eu gostava tanto de espetar com um alfinete de ama, como um professor de história natural, para que todos a pudessem admirar ou reduzir aos seus elementos fundamentais ( estou-me a lembrar que esta é uma boa definição do Pierrot) para interessar os alunos, os habitantes da terra em geral, os espectadores de cinema em particular.

 A vida, pois, apenas a vida, que eu queria captar graças a panorâmicas sobre a natureza, a planos fixos sobre a morte, a imagens breves ou longas, a sons fortes ou fracos, aos movimentos - que posso eu dizer - de Anna e de Jean-Paul, actor e actriz livre e escrava, mas como ou qual rima com homem ou mulher?

 Mas a vida estorce-se mais do que o peixe de Nanouk, escapa-se-nos dos dedos como as saudades que Muriel tinha na Bolonha reconstruída, eclipsa-se entre as imagens e, entre parêntesis, aproveito para dizer que, como por acaso, o único problema do cinema me parece ser cada vez mais em cada filme onde e porque começar um plano, onde e porque acabá-lo.

 A vida enche, pois, a tela como uma torneira a tina, que na mesma quantidade se esvazia no mesmo tempo. Passa e a saudade que nos deixa é feita à sua imagem, ao contrário da pintura que não tem a transparência do Eastman, como achava Picasso ao ver o seu "Mistério" projectado na grande projecção do L.T.C., ao contrário da música e do romance que também souberam empregar e definir duas ou três maneiras de a agarrar.

 A vida desaparece da obscura tela das nossas salas de cinema, exactamente como Albertine fugiu do quarto hermeticamente fechado do inimigo de Sainte-Beuve. Mas comigo é ainda pior, é impossível consolar-me, como Proust, transformando este sujeito em objecto. É tão inútil como querer fazer como esse outro, que Poe imaginou, William Wilson chamado, de quem Pierrot conta a história na bobina três, depois da história do suicídio de Nicolas de Stael, pois que na vida tudo fica como foi dito, sem que a gente consiga alguma vez saber se fica assim porque a vida é assim, ou se antes pelo contrário. De resto, só digo antes pelo contrário porque estou  a escrever com palavras que se trocam e se podem substituir umas pelas outras, mas a vida a vida que elas representam pode-se trocar?

 Pergunta perigosa e difícil, esta é a encruzilhada onde as ideias perguntam que caminho hão-de tomar e, por isso, Marianne Renoir na mesma bobine, um bocadinho depois, cita um texto muito bonito de Pavese em que nos é dito que nunca nos perguntemos nem o que existiu primeiro, se as palavras se as coisas, nem o que virá a seguir, que só o que importa é sentirmo-nos vivos, e isso era para mim, que o filmava, uma verdadeira imagem do cinema, o verdadeiro símbolo do cinema, mas símbolo, mais do que isso, não porque o que era verdade para Marianne e para Pierrot, não perguntar o que existiu primeiro, não o era para mim, que estava exactamente nessa altura a fazer-me essa pergunta; por outras palavras, no momento em que tinha a certeza de ter filmado a vida, a vida fugia-me exactamente por causa disso mesmo e dava de caras comigo e com a cara de William Wilson, que imaginou ter visto o seu duplo na rua, perseguiu-o, matou-o e depois se deu conta que o outro era ele e que ele, que ficara vivo, não era outro senão o seu duplo. Como se costuma dizer, toda esta história de Wilson é uma fita. Tomada à letra, esta expressão dá-nos uma ideia bastante aproximada, ou definição pela fita, dos problemas do cinema, em que o imaginário e o real estão nitidamente separados e no entanto, são um só, como essa superfície de Moebius que tem ao mesmo tempo um lado e dois lados, como essa técnica do cinema-verdade que é também uma técnica da mentira.

  Com muito menos do que isto, já tínhamos muito boas razões para nos espantarmos. E é por isso que é difícil dizer o que quer que seja do cinema, pois que lá como cá, Sergei Eisenstein como Jean Renoir, o fim e os meios confundem-se sempre, pois que, diria Malraux, trata-se de ouvir com as orelhas o som da nossa própria voz, que nos habituámos a ouvir com a garganta. Bastaria então um Nagra ou um Telefunken. Não, porque isto não é só isso. É verdade que a voz que sai do altifalante, a acabamos por aceitar como a nossa, mas também o é, que ouvida com os ouvidos é outra coisa, muito exactamente é os outros, e temos então que fazer a mais difícil das coisas que é ouvir os outros com a nossa garganta.

  Este duplo movimento que nos projecta para os outros e ao mesmo tempo nos traz ao fundo de nós próprios define fisicamente o cinema. Insisto na palavra fisicamente que deve ser tomada na sua acepção mais simples. Quase se poderia dizer: tactilmente, para distinguir das outras artes. O som mortal do clarinete em Mozart é vivo, metafísico, doloroso, mágico, tudo o que se quiser menos táctil. Disso se pode falar horas a fio, escrever livros sobre, mesmo, em parte, foi para isso que foi feito, para ajudar tudo a viver. A mesma coisa se diga dum encarnado de Matisse, dum verde de Delacroix, de que Aragon e Baudelaire nos falarão horas a fio, para nosso prazer, tanto e talvez muito menos do que para o deles. Mas quem, pelo contrário, precisará de falar horas a fio da dor de Yang Kar Fei, do eléctrico da Aurora, de Marc Dixon detective, ou dos trágicos, doces olhos de Luise Reiner? Dois ou três amigos cinéfilos, numa noite, e mesmo assim, porque pobres demais para se meterem num taxi, são forçados a atravessar a cidade a pé para regressarem da Cinemateca aos quartos alugados em que vivem. Mas se tivessem dinheiro, e se o filme passasse em exploração comercial, iriam revê-lo no dia seguinte.

  A mulher que se ama é de noite que a acordamos, mas não vamos telefonar depois aos amigos a contar como foi. Difícil, pois, como se vê, falar de cinema, a arte faz-se, mas é impossível a crítica desse tema que o não é, cujo avesso é o direito, que se aproxima quando se afasta, fisicamente, sempre fisicamente, não o esqueçamos nunca.

Por isso, conhecer o cinema é tarefa tão árdua como o Est de Claudel, e cito de memória; estrada alguma é o caminho que preciso de percorrer. Nada, regresso, me acolhe ou, partida, me liberta. Este dia seguinte não é do dia que ontem foi. Digamos esta última frase em termos de cinema: dois planos que se seguem não quer dizer que se sigam. E dois planos que se não seguem também não. Neste sentido, pode-se dizer que o Pierrot não é verdadeiramente um filme. É antes uma tentativa de cinema. E o cinema, dando garganta à realidade, lembra-nos que é preciso viver.



*tradução de João Bénard da Costa do texto publicado nos Cahiers du Cinéma, nº 171, Outubro de 1965


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Rindo para o vento forte que te fode/ Como um ladrão (Arthur Rimbaud)

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte

Paul Verlaine

Agora desapareci
Eu desapareci com o vento
Sou o vento

Jon Fosse


Love me, Love me, Love me, say you do
Let me fly away with you
for my love is like the wind, and wild is the wind
Wild is the wind
Give me more than one caress, satisfy this hungriness
Let the wind blow through your heart
For wild is the wind



segunda-feira, 14 de novembro de 2011



Desfeito, Gainsbourg projecta-se, projectando-nos a um profundo poço que mal antevemos, mas que sabemos lá, algures no fundo de nós. "Vim dizer-te que me vou enfim, que me irei para sempre, sem que o possas evitar... " Conseguirás ver-me melhor agora, com o meu rosto e não o rosto de um outro? Não há franqueza como aquela que na miséria se nos expõe

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Época dos Iluminados, Henri Michaux


QUANDO O LÁPIS QUE É AMIGO DA ONÇA deixar de ser
amigo da onça.
Quando o mais pobre se vir de boca cheia, cheia
de estilhaços e verdade.
Quando os automóveis ficarem para sempre enterrados
na berma das estradas.
Quando aquilo que é incrível for tido como uma
verdade da ordem do "dois mais dois são quatro".
Quando os animais calarem os homens com o seu
falatório melhor compreendido e incomparável.
Quando a tipografia e os seus sucedâneos não
passarem duma esquisitice semelhante à roca de fiar ou à
moeda do imperador Augusto.
Quando a grande esponja tiver passado, ah pois! por
certo já eu terei desaparecido, é por isso que agora me
regalo e caso eu suspenda esta enumeração, pode você
continuá-la.
Não é preciso uma pessoa arregaçar as mangas da
camisa para dar cabo de um fósforo, e o marco miliário
continua a exercer o seu papel visto nunca se pôr a andar
estrada fora, e a vida é preciosa para quem já perdeu 26
anos, e os cabelos caem rapidamente da cabeça obstinada,
e as lágrimas só chegam quando o trabalho acaba, e
os géneros literários são inimigos que nunca falham os
alvos que nós somos se à primeira os tivermos nós falhado
a eles.
É preciso estarmos sempre de pé atrás, Meus Senhores,
sempre com pressa de acabar, jurar tal coisa e voltar
a pôr todos os dias essa jura em obra, não nos permitirmos
por mero prazer uma única respiraçãozinha, utilizar
todas as pancadas do coração naquilo que fazemos, pois
aquela que tenha sido empregue só por divertimento irá
pôr em desordem as milhares de outras quese seguem.
A vida é curta meus cordeirinhos.
Muitíssimo longa é ela ainda, meus cordeirinhos.
Com ela hão-de ver-se incomodados, meus pequeninos.
Alguém vos há-de livrar dela, meus excessivamente
pequeninos.
Nem todos nascemos para ser profetas.
Muitos porém nasceram para ser tosquiados.
Nem todos nascemos para abrir janelas.
Mas muitos nasceram para serem asfixiados.
Nem todos nacemos para ver com clareza
Mas muitos nasceram para serem lorpas.
Nem todos nascemos para sermos urbanos
Mas muitos nasceram para andar de ombros descaídos...
 et caetera, aquele que agora desconheça a sua
categoria há-devê-la mais tarde e entrar nela como o
 peixe na água.  As opções não serão tantas como isso.
Uma pessoa não vai logo sacar do cartão de visita ou
da caixinha de títulos. Há-de enfileirar com presteza no
seu próprio grupo que já bate o pé com impaciência.
Desgraçado o que se decidir tarde demais.
Desgraçado o que quiser prevenir a mulher.
Desgraçado o que se atirar a um cargo.
Será preciso ficar logo equipado, ver-se logo cheio
de sangue fresco, apanahr o alforge pelo caminho e não
sangrar dos pés.
Haverá agências de informações, de explicações, de
palavrórios.Você há-de pôr-se a andar, de orelhas moucas
excepto ao seu próprio objectivo e que consiste em
ir e ir, e não há-de lamentar tal coisa - falo por aquele
que há-de ir mais longe e sempre na corda bamba, uma
corda cada vez mais fina, mais fina, mais fina. Por esse
que se volta, dá cabo dos ossos e se estatela no Passado.
Aquele que se lamentasse, teria, se não houvesse caminhado,
lamentado muito mais.
Pobre gente, essa que há-de parar nas curvas, pobre
gente, e haverá disso, pobre gente e curvas.
Eram umas pobres pessoas à nascença, foram umas
pobres pessoas ao morrer, vêem-se à mercê duma curva.
Tão-pouco se deverá gritar, a refrega será já bastante
intensa. A gente não se há-de reconhecer, é por isso
também que deveremos ter pressa de escapar e de andar
para a frente.Desgraçados os que se ocuparem de subtilezas,
raramente isso é bom, é coisa que profundamente se
desaconselha nas brigas.
Desgraçados os que perderem tempo a quatro a jogar
à bisca ou a dois na dengosa fruição de amor que os
há-de cansar mais depressa que os outros.
Desgraçados, desgraçados!
Será atroz para as pessoas que deveriam ter ficado
de coração seguro e sentem que é tarde demais.
Para os que gostam de ver sofrer, haverá espectáculo,
lá isso, mas a época não há-de pertencer aos mirones,
há-de ser dos acelerados, dos sem família, dos que não
tenham técnica nenhuma mas mostrem, isso sim, um
imperturbável apetite.
Quanto a vocês, os iluminados, pensem que isso não
há-de durar sempre, um iluminado não se sacia em todas
as épocas - alguma há-de ser boa -, hão-de depois
adorar-vos em delírio, hão-de seguir-vos à cegas.
Finalmente! Finalmente!
Mas que isso acabe depressa. Digo-o para vosso bem,
um iluminado não pode durar muito tempo. Um iluminado
come o seu próprio tutano, e a satisfação não é o que vos
interessa. Vocês verão aliás como isso acabará.
Os sons voltarão a entrar no orgão e o futuro há-de
invaginar-se no Passado como sempre fez.

 retirado de O Retiro pelo Risco- Antologia poética de Henri Michaux,
 Fenda, 1999, Qui je fus, 1927 (tradução de Júlio Henriques)