segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Época dos Iluminados, Henri Michaux


QUANDO O LÁPIS QUE É AMIGO DA ONÇA deixar de ser
amigo da onça.
Quando o mais pobre se vir de boca cheia, cheia
de estilhaços e verdade.
Quando os automóveis ficarem para sempre enterrados
na berma das estradas.
Quando aquilo que é incrível for tido como uma
verdade da ordem do "dois mais dois são quatro".
Quando os animais calarem os homens com o seu
falatório melhor compreendido e incomparável.
Quando a tipografia e os seus sucedâneos não
passarem duma esquisitice semelhante à roca de fiar ou à
moeda do imperador Augusto.
Quando a grande esponja tiver passado, ah pois! por
certo já eu terei desaparecido, é por isso que agora me
regalo e caso eu suspenda esta enumeração, pode você
continuá-la.
Não é preciso uma pessoa arregaçar as mangas da
camisa para dar cabo de um fósforo, e o marco miliário
continua a exercer o seu papel visto nunca se pôr a andar
estrada fora, e a vida é preciosa para quem já perdeu 26
anos, e os cabelos caem rapidamente da cabeça obstinada,
e as lágrimas só chegam quando o trabalho acaba, e
os géneros literários são inimigos que nunca falham os
alvos que nós somos se à primeira os tivermos nós falhado
a eles.
É preciso estarmos sempre de pé atrás, Meus Senhores,
sempre com pressa de acabar, jurar tal coisa e voltar
a pôr todos os dias essa jura em obra, não nos permitirmos
por mero prazer uma única respiraçãozinha, utilizar
todas as pancadas do coração naquilo que fazemos, pois
aquela que tenha sido empregue só por divertimento irá
pôr em desordem as milhares de outras quese seguem.
A vida é curta meus cordeirinhos.
Muitíssimo longa é ela ainda, meus cordeirinhos.
Com ela hão-de ver-se incomodados, meus pequeninos.
Alguém vos há-de livrar dela, meus excessivamente
pequeninos.
Nem todos nascemos para ser profetas.
Muitos porém nasceram para ser tosquiados.
Nem todos nascemos para abrir janelas.
Mas muitos nasceram para serem asfixiados.
Nem todos nacemos para ver com clareza
Mas muitos nasceram para serem lorpas.
Nem todos nascemos para sermos urbanos
Mas muitos nasceram para andar de ombros descaídos...
 et caetera, aquele que agora desconheça a sua
categoria há-devê-la mais tarde e entrar nela como o
 peixe na água.  As opções não serão tantas como isso.
Uma pessoa não vai logo sacar do cartão de visita ou
da caixinha de títulos. Há-de enfileirar com presteza no
seu próprio grupo que já bate o pé com impaciência.
Desgraçado o que se decidir tarde demais.
Desgraçado o que quiser prevenir a mulher.
Desgraçado o que se atirar a um cargo.
Será preciso ficar logo equipado, ver-se logo cheio
de sangue fresco, apanahr o alforge pelo caminho e não
sangrar dos pés.
Haverá agências de informações, de explicações, de
palavrórios.Você há-de pôr-se a andar, de orelhas moucas
excepto ao seu próprio objectivo e que consiste em
ir e ir, e não há-de lamentar tal coisa - falo por aquele
que há-de ir mais longe e sempre na corda bamba, uma
corda cada vez mais fina, mais fina, mais fina. Por esse
que se volta, dá cabo dos ossos e se estatela no Passado.
Aquele que se lamentasse, teria, se não houvesse caminhado,
lamentado muito mais.
Pobre gente, essa que há-de parar nas curvas, pobre
gente, e haverá disso, pobre gente e curvas.
Eram umas pobres pessoas à nascença, foram umas
pobres pessoas ao morrer, vêem-se à mercê duma curva.
Tão-pouco se deverá gritar, a refrega será já bastante
intensa. A gente não se há-de reconhecer, é por isso
também que deveremos ter pressa de escapar e de andar
para a frente.Desgraçados os que se ocuparem de subtilezas,
raramente isso é bom, é coisa que profundamente se
desaconselha nas brigas.
Desgraçados os que perderem tempo a quatro a jogar
à bisca ou a dois na dengosa fruição de amor que os
há-de cansar mais depressa que os outros.
Desgraçados, desgraçados!
Será atroz para as pessoas que deveriam ter ficado
de coração seguro e sentem que é tarde demais.
Para os que gostam de ver sofrer, haverá espectáculo,
lá isso, mas a época não há-de pertencer aos mirones,
há-de ser dos acelerados, dos sem família, dos que não
tenham técnica nenhuma mas mostrem, isso sim, um
imperturbável apetite.
Quanto a vocês, os iluminados, pensem que isso não
há-de durar sempre, um iluminado não se sacia em todas
as épocas - alguma há-de ser boa -, hão-de depois
adorar-vos em delírio, hão-de seguir-vos à cegas.
Finalmente! Finalmente!
Mas que isso acabe depressa. Digo-o para vosso bem,
um iluminado não pode durar muito tempo. Um iluminado
come o seu próprio tutano, e a satisfação não é o que vos
interessa. Vocês verão aliás como isso acabará.
Os sons voltarão a entrar no orgão e o futuro há-de
invaginar-se no Passado como sempre fez.

 retirado de O Retiro pelo Risco- Antologia poética de Henri Michaux,
 Fenda, 1999, Qui je fus, 1927 (tradução de Júlio Henriques)

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