segunda-feira, 10 de maio de 2010

Desenraizados

Basta de mar. Já vimos mar que chegue.
De tarde, quando descolorida a água se alonga e perde
dentro do nada, o meu amigo olha-a fixadamente
e eu fito o meu amigo e nenhum de nós diz palavra.
Chegada a noite, vamos acabar nos fundos de uma taberna
bebendo sozinhos no meio do fumo. O meu amigo tem sonhos
(são monótonos os sonhos que o ruído do mar embala)
em que a água é apenas o espelho, entre uma ilha e outra,
onde se reflectem colinas salpicadas de flores selvagens e de cascatas.
Quando bebe é assim, olha-se dentro do copo e vê-se
a erguer colinas verdes na planície do mar.
A mim agradam-me as colinas; e deixo que me fale do mar
porque a água é tão clara que mostra as pedras do fundo.
Eu é só colinas o que vejo e enchem-me a terra e o céu
com as linhas seguras dos seus perfis, longe ou perto.
Mas as minhas são abruptas, estriadas de vinhas
que penosamente crescem de um solo em brasa. O meu amigo aceita-as
mas quer vesti-las de flores e de frutos selvagens
para nelas descobrir, rindo, raparigas mais nuas do que os frutos.
Não é preciso: aos meus sonhos mais ásperos não falta um sorriso.
Se amanhã, de manhã cedo, nos metermos a caminho
em direcção a essas colinas, talvez encontremos nas vinhas
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
talvez, entabulando conversa, possamos comer das suas uvas.

Cesare Pavese

* tradução de Rui Caeiro

femme dans la mer,
Auguste Rodin



Mulheres Apaixonadas


Ao crepúsculo as raparigas entram na água
quando o mar se alonga e desaparece. No bosque
cada folha estremece ao mesmo tempo que elas emergem,
prudentes, e vão sentar-se na areia da praia. A espuma
brinca inquieta no mar ao longe.

As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se enleiam nas pernas e nos ombros:
quanto do corpo é nu. Voltam, rápidas, para a orla
e chamam-se pelos nomes, olhando em volta.
Também as sombras, no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se agitar ao de leve,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
ao sol-pôr é um refúgio tranquilo,
mais do que o areal, mas as raparigas de pele queimada
pelo sol
preferem estar ao ar livre, embrulhadas na toalha.

Ali estão acocoradas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar distenso
como um prado ao crepúsculo. Alguma delas se atreveria
agora a deitar-se nua nas ervas dum prado? Do mar
viriam as algas, que afloram os pés,
para a manietarem e se apoderarem do seu corpo trémulo.
Há nas águas do mar olhos que por vezes afloram.

A estrangeira desconhecida que pelo escuro da noite nadava,
sozinha e nua, na mudança de lua,
desapareceu uma noite e nunca mais voltou.
Era alta e devia ser de uma brancura deslumbrante
para, do fundo do mar, os olhos a alcançarem.


15 de Agosto de 1935,
Cesare Pavese


* na preciosa tradução de Rui Caeiro,
inserida no livro "O vício absurdo", &etç